
A NOITE DOS MORTOS VIVOS
(NIGHT OF THE LIVING DEAD – 1968)
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O bacana dos filmes de terror é que eles são um puta termômetro das coisas. O medo é um catalisador poderoso.
Pense na ressaca atômica dos anos 50 e 60, e a escola “ciência-que-deu-errado” de cinema fantástico, movida a monstros e mutações, faz todo sentido. A desconfiança com o poder destrutivo das novas tecnologias alimentava uma certa tensão geral, um medo difuso do átomo como ferramenta do estrago.
Não que o povo achasse que o grande problema da bomba atômica fossem os monstros da lagoa ou homens-mosca criados pela radiação. Vai ver, até achava. O ponto é que aquela tensão toda dava liga para que a platéia do cinema topasse o jogo, que a maioria entrasse na onda e se entendesse através de um medo comum.
É verdade que boa parte da cinematografia de horror dos 50 e 60 é formada por filmes vagabundos, sem muita preocupação reflexiva e tal. Mas, sabe como é, o espírito da época, quer queira quer não, fica lá estampado na obra.
Nesse sentido, talvez o primeiro grande diretor a ter a sacada e brincar de acordo com esses aspectos políticos do medo tenha sido George Romero, com A Noite dos Mortos Vivos (Night of The Living Dead, 1968).
Não sei se o amigo leitor já viu o filme. Caso não tenha visto, a história gira basicamente em torno de um monte de gente que, em boa parte desconhecida entre si, tenta sobreviver ao ataque de zumbis canibais.
Os mortos, radiativamente levantados pela explosão de uma sonda espacial na atmosfera, saem por aí mastigando os vivos, e só páram se têm o cérebro inutilizado. Como se a coisa já não fosse feia o suficiente, os sobreviventes contaminados pelas mordidas dos defuntos acabam virando zumbis também. Em meio a isso tudo, um pessoal acaba indo parar numa casa no meio do nada, se tranca, e tenta se entender sobre o que fazer. Até o pau comer solto.
Agora, a grande grande sacada é a seguinte: a partir do clichê “ciência do mal”, (fica pairando no filme a desconfiança do tal lixo espacial como uma possível bomba russa), Romero levanta uma segunda camada de paranóia.
A inquietação com os agitos políticos dos anos 60 e o aparecimento de uma nova multidão até então fora do radar, suspensa, é lindamente alegorizada nos zumbis. Naquela torrente de mortos ensandecidos, estampava-se esse “outro” (pacifistas contra o Vietnã, ativistas negros, feministas, hippies) que entrava na disputa pelo espaço público. E a parte do canibalismo infeccioso meio que ilustra as delicadas tentativas de entendimento entre essa ordem emergente e o status quo.
A coisa fica mais clara se a gente analisar os sobreviventes que se trancam na casa: uma garota em estado de choque, um trabalhador negro, uma família de classe média e um casal de jovens.
Pressionados pela ameaça do lado de fora, seus papéis vão se desenhando no que seria, na visão do Romero, um microcosmo da sociedade estadunidense da época: o trabalhador negro como um novo tipo de líder, a família de classe média algo suicida no seu egoísmo e apego ao conforto, a moça que, paralisada pelo choque da mudança, consegue ser pouco mais que massa de manobra. E o casal de jovens, aberto às novas possibilidades de trabalho e colaboração — mas à mercê da fagulha impulsiva da mocidade– como uma espécie de ponto de criação e instabilidade.
A beleza da coisa é que essa maquete social funciona muitíssimo bem no filme. A situação limite serve de vetor para que os vivos acabem se pegando, se tornando um risco tão grande para si mesmos quanto os zumbis. O mal estar maior, no fim das contas, vem desse lance meio hobbesiano claustrofóbico. Tá certo que o gore ajuda. Mas não é o motor do filme.
Rodado num orçamento nanico bancado pela própria equipe de produção, com uma pegada semi-documental, A Noite dos Mortos Vivos é, seguramente, um dos mais influentes clássicos do cinema. Além de ter recriado a mitologia zumbi para as décadas seguintes, a proposta de terror sociológico cru inventada por Romero seguiu permeando coisas de O Exorcista a Taxi Driver, do Massacre da Serra Elétrica a Cães de Aluguel.
Genial. E ponto.